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sábado, 6 de agosto de 2022

Aquiles Castro - De vagar devagar...




Ao longe...

devagar se vai ao longe?

Eu vago. Estou longe, perto, quase...

De vagar por aí eu divago ao voar nos pensamentos,

de acordo com dicionário...

Devagar eu por aí divago, sem querer vagar, mas vago.

Vagando devagar em divagar pela rua,

lugar comum pra quem vaga, apesar de não se ter mais vaga,

não posso estacionar meu carro em qualquer ilusão...

segue o coração a vagar devagar, de cansado de vagar

em direção ao trem sem vagão ao flutuar sobre os trilhos.

Ao caminhar devagar sem caminho, não me apresso pressionado

por minhas próprias divagações...

pago o preço da falta de pressa pretérita, devagar, ao vagar...

Não divago mais.

Devagar não ando mais.

E de vagar me esqueci rapidamente,

pois não estou mais vago.

Em mim alguém encontrou vaga, devagar...

e por estar a vagar encontrei vaga também seu vagão encantado,

seu coração abençoado que me completou.

Diferente estou.

Devagar sigo no ágar-ágar.

De vagar não mais entendo.

Antes sofrendo, pagando...

agora devagar não mais vagando.

Voando!!!

Pra bem longe...

Aquiles Castro

terça-feira, 23 de março de 2021

Fernando Pessoa "Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades"












Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades que são negativas para fins de influir, de qualquer modo que seja, na generalidade de um ambiente social. Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise. Sou, em segundo lugar, um analisador que busca, quanto em si cabe, descobrir a verdade. Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade — em tudo, e mormente em coisas sociais — é sempre complexa. Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é, mentiras, ainda que partindo de verdades; pois dar como simples o que é complexo, dar sem distinção o que cumpre distinguir, ser geral onde importa particularizar, para definir, e ser vago em matéria onde o que vale é a precisão — tudo isto importa em mentir.

Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo que busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial. Não só portanto lhe desagrada ou não interessa, por estranho à sua índole, o mesmo tom da imparcialidade, mas ainda mais o agrava o que de concessões, de restrições, de distinções é preciso usar para ser imparcial. Entre nós, por exemplo, e em a maioria dos povos do sul de Europa, ou se é católico, ou se é anti-católico, ou se é indiferente ao catolicismo, porque a tudo. Se eu, portanto, fizesse um estudo sobre o catolicismo, onde forçosamente teria que dizer mal e bem, que apontar vantagens misturadas com desvantagens, que indicar defeitos aliviados por virtudes, que me sucederia? Não me escutariam os católicos, que não aceitariam o que eu dissesse de mal do catolicismo. Não me escutariam os anti-católicos, que não aceitariam o que eu lhes dissesse de bem. Não me escutariam os indiferentes, para quem todo o assunto não passaria de uma maçadoria ilegível. Assim resultaria inútil esse meu estudo, por cuidado e escrupuloso que fosse — direi, até, tanto mais inútil, porque tanto menos aceitável ao público, quanto mais fosse cuidado e escrupuloso. Seria, quando muito, apreciado por um ou outro indivíduo de índole semelhante à minha, raciocinador sem tradições nem ideais, analisador sem preconceitos, liberal porque liberto e não porque servo da ideia inaplicada da liberdade. A esse, porém, que teria eu que ensinar? Quando muito, certas coisas particulares sobre o catolicismo, na hipótese que me serviu de exemplo, e no caso de lhe ser a ele estranho o assunto. E se a ele, perscrutador cultural como eu, o assunto é estranho, é que nunca o interessou; se nunca o interessou, para que vai ler o que escrevi sobre ele?

De aqui parece dever concluir-se que um estudo raciocinado, imparcial, cientificamente conduzido, de qualquer assunto é um trabalho socialmente inútil. Assim de facto é. É, quando muito, uma obra de arte, e mais nada. Vox et preterea nihil.


As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Dia de Festa no Luxúria Cult - Cantos novos - Frederico Garcia Lorca

Diz a tarde: “Tenho sede de sombra!"
Diz a lua: “Eu, sede de luzeiros.”
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério)

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.

Frederico Garcia Lorca




sexta-feira, 12 de junho de 2020

A Máscara - Charro Sendero



Minha máscara 
Vai além da omissão
É canto
Com vibrato .
Sem falsete
Cada disfarce,
Uma crença,
Santo em demanda
Demônio em desencanto
É cura
E feitiço.
Traços de persona
Como sombra
Testemunha
Persistente
Invisível
O que não é

. . .
Encanta...
Incita conhecer


Charro Sendero

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Desenhado no Coração - Charro Sendero


Pensei
Numa noite
Depois, na lua
Com seu brilho
Com sua beleza
Com suas fases
Com seu vazio
Com suas faces
Para fazer este desenho
Depois olhar como
Com carinho
Como numa janela

Antes
Tracei os olhos
Que não me viram
As sombras
Da maquiagem
Inventando máscaras
Que escondem
Sentimentos
Depois a boca
Que, comigo, não falava
Há de se ter cuidado...
Lábios pequenos!
São para poucos
Beijos com devoção

As nuvens no céu
Escondendo
Devaneios
De cavalgada
Minha busca
E o vento
Soprava suavemente
Fio a fio nos cabelos
Dia a dia sonhado
Noite após noite
São muitos traços
Sem pressa
Pura contemplação

A cena estava definida
Tons de solidão
Logo,as partes
Separadas
Pela natureza
O volume dos seios
Como se os guardasse
Na palma de minhas mãos
No final
Não poderei tocar
Realidade
Não

Nunca
Para um cavaleiro
De todos os sonhos
Assim, diante do nada
Desenhei um coração
De rainha
Tão majestoso
Cercado e protegido
Guardando o próprio seio
E o outro desnudo?
Delicadamente
Arranquei o meu
Que, imponente
Oculta
Amores.

Para Farroupilha

sábado, 16 de maio de 2020

Noite Negra - Charro Sendero

Essa noite
Libertarei a paixão, 
Minha cobiça, 
Minha tentação, 
Minha fome 
Todos buscando
Seu gosto de fêmea 
E, é na madrugada 
De lua cheia 
Onde meu espírito impera 
Não há o que possa deter 
Meu desejo incandescente 
Ardendo no seu corpo. 
Pois, em noite negra
De Lua Cheia 
Um é a sombra do outro.

Charro Sendero

sexta-feira, 15 de maio de 2020

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas 
que 
seja infinito 
enquanto dure.
Vinícius de Moraes São Paulo , 1946

terça-feira, 12 de maio de 2020

Annabel Lee - Poema Edgar Allan Poe



Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Edgar Allan Poe