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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Desenhado no Coração - Charro Sendero


Pensei
Numa noite
Depois, na lua
Com seu brilho
Com sua beleza
Com suas fases
Com seu vazio
Com suas faces
Para fazer este desenho
Depois olhar como
Com carinho
Como numa janela

Antes
Tracei os olhos
Que não me viram
As sombras
Da maquiagem
Inventando máscaras
Que escondem
Sentimentos
Depois a boca
Que, comigo, não falava
Há de se ter cuidado...
Lábios pequenos!
São para poucos
Beijos com devoção

As nuvens no céu
Escondendo
Devaneios
De cavalgada
Minha busca
E o vento
Soprava suavemente
Fio a fio nos cabelos
Dia a dia sonhado
Noite após noite
São muitos traços
Sem pressa
Pura contemplação

A cena estava definida
Tons de solidão
Logo,as partes
Separadas
Pela natureza
O volume dos seios
Como se os guardasse
Na palma de minhas mãos
No final
Não poderei tocar
Realidade
Não

Nunca
Para um cavaleiro
De todos os sonhos
Assim, diante do nada
Desenhei um coração
De rainha
Tão majestoso
Cercado e protegido
Guardando o próprio seio
E o outro desnudo?
Delicadamente
Arranquei o meu
Que, imponente
Oculta
Amores.

Para Farroupilha

terça-feira, 12 de maio de 2020

Annabel Lee - Poema Edgar Allan Poe



Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Edgar Allan Poe