quinta-feira, 5 de agosto de 2021
Aquiles Castro no traço de Ray Titto
terça-feira, 23 de março de 2021
Fernando Pessoa "Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades"
Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades que são negativas para fins de influir, de qualquer modo que seja, na generalidade de um ambiente social. Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise. Sou, em segundo lugar, um analisador que busca, quanto em si cabe, descobrir a verdade. Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade — em tudo, e mormente em coisas sociais — é sempre complexa. Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é, mentiras, ainda que partindo de verdades; pois dar como simples o que é complexo, dar sem distinção o que cumpre distinguir, ser geral onde importa particularizar, para definir, e ser vago em matéria onde o que vale é a precisão — tudo isto importa em mentir.
Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo que busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial. Não só portanto lhe desagrada ou não interessa, por estranho à sua índole, o mesmo tom da imparcialidade, mas ainda mais o agrava o que de concessões, de restrições, de distinções é preciso usar para ser imparcial. Entre nós, por exemplo, e em a maioria dos povos do sul de Europa, ou se é católico, ou se é anti-católico, ou se é indiferente ao catolicismo, porque a tudo. Se eu, portanto, fizesse um estudo sobre o catolicismo, onde forçosamente teria que dizer mal e bem, que apontar vantagens misturadas com desvantagens, que indicar defeitos aliviados por virtudes, que me sucederia? Não me escutariam os católicos, que não aceitariam o que eu dissesse de mal do catolicismo. Não me escutariam os anti-católicos, que não aceitariam o que eu lhes dissesse de bem. Não me escutariam os indiferentes, para quem todo o assunto não passaria de uma maçadoria ilegível. Assim resultaria inútil esse meu estudo, por cuidado e escrupuloso que fosse — direi, até, tanto mais inútil, porque tanto menos aceitável ao público, quanto mais fosse cuidado e escrupuloso. Seria, quando muito, apreciado por um ou outro indivíduo de índole semelhante à minha, raciocinador sem tradições nem ideais, analisador sem preconceitos, liberal porque liberto e não porque servo da ideia inaplicada da liberdade. A esse, porém, que teria eu que ensinar? Quando muito, certas coisas particulares sobre o catolicismo, na hipótese que me serviu de exemplo, e no caso de lhe ser a ele estranho o assunto. E se a ele, perscrutador cultural como eu, o assunto é estranho, é que nunca o interessou; se nunca o interessou, para que vai ler o que escrevi sobre ele?
De aqui parece dever concluir-se que um estudo raciocinado, imparcial, cientificamente conduzido, de qualquer assunto é um trabalho socialmente inútil. Assim de facto é. É, quando muito, uma obra de arte, e mais nada. Vox et preterea nihil.
As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.
Fernando Pessoa
Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo que busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial. Não só portanto lhe desagrada ou não interessa, por estranho à sua índole, o mesmo tom da imparcialidade, mas ainda mais o agrava o que de concessões, de restrições, de distinções é preciso usar para ser imparcial. Entre nós, por exemplo, e em a maioria dos povos do sul de Europa, ou se é católico, ou se é anti-católico, ou se é indiferente ao catolicismo, porque a tudo. Se eu, portanto, fizesse um estudo sobre o catolicismo, onde forçosamente teria que dizer mal e bem, que apontar vantagens misturadas com desvantagens, que indicar defeitos aliviados por virtudes, que me sucederia? Não me escutariam os católicos, que não aceitariam o que eu dissesse de mal do catolicismo. Não me escutariam os anti-católicos, que não aceitariam o que eu lhes dissesse de bem. Não me escutariam os indiferentes, para quem todo o assunto não passaria de uma maçadoria ilegível. Assim resultaria inútil esse meu estudo, por cuidado e escrupuloso que fosse — direi, até, tanto mais inútil, porque tanto menos aceitável ao público, quanto mais fosse cuidado e escrupuloso. Seria, quando muito, apreciado por um ou outro indivíduo de índole semelhante à minha, raciocinador sem tradições nem ideais, analisador sem preconceitos, liberal porque liberto e não porque servo da ideia inaplicada da liberdade. A esse, porém, que teria eu que ensinar? Quando muito, certas coisas particulares sobre o catolicismo, na hipótese que me serviu de exemplo, e no caso de lhe ser a ele estranho o assunto. E se a ele, perscrutador cultural como eu, o assunto é estranho, é que nunca o interessou; se nunca o interessou, para que vai ler o que escrevi sobre ele?
De aqui parece dever concluir-se que um estudo raciocinado, imparcial, cientificamente conduzido, de qualquer assunto é um trabalho socialmente inútil. Assim de facto é. É, quando muito, uma obra de arte, e mais nada. Vox et preterea nihil.
As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.
Fernando Pessoa
segunda-feira, 1 de março de 2021
Perdemos meia vida - Eliana Flores - Café do Buk
Perdemos meia vida
Tentando fazer
Com que alguém
Se interesse por nós
Fique conosco
E nos esquecemos
Que no mundo
Existem infinitas opções
Por se explorarem
Então não precisamos
Continuar morando
Na incerteza de alguém
Existem milhares de corações
Sinceros e desocupados
Mas preferimos insistir
Em quem não faz questão
De retornar uma mensagem de bom dia
Com a mesma intensidade
Em que nasce o sol.
Negamos à nós mesmos
O direito de sermos felizes
E de outras pessoas serem felizes
Porque perdemos meia vida
Tentando fazer com que alguém
Se interesse por nós
Quando o amor é espontâneo e
recíproco na sua maioria.
Bom dia senhoritas e senhores.
Um mês fabuloso a nós.
Eliana Flores
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
Entre o real e o imaginário - Marina Branquinho
Entre o real e o imaginário
Milimetricamente potente,
Uma onda de desejo se instala.
Calafrios em um corpo quente,
Um Cheiro de fêmea se exala.
A vontade de ter o corpo invadido,
Tocado, acariciado...
Beijado, entorpecido,
Consentido violado...
Um querer incontido...
De fazer amor,
De ter seu corpo em mim envolvido...
De me entregar a esse torpor.
De olhos fechados só o necessário,
O corpo flutua de prazer,
Ora real, ora imaginário...
Entregue ao que você quiser de mim fazer.
Ora imaginário, ora real...
Todos os sentidos aflorados!
Num êxtase sobrenatural,
Entregue, corpo trêmulo e suado.
Respiração ofegante,
Boca seca, coração acelerado,
Inconsciente por um breve instante.
O amor se faz ,por você embriagado.
Marina Branquinho
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
Flashback Viola no Paletó - Paulo Diniz
"Minha gente eu vim de longe
Estou aqui cansado e só
Tenho muito pra contar
Do que vi, por onde andei
Das estradas dos caminhos
Dos lugares que passei..."
terça-feira, 9 de fevereiro de 2021
Charro Sendero - Marina Branquinho - Café do Buk
Charro Sendero
Ele me encontrou
Declamando poesias
Então me chamou
Pra ser sua companhia
Num grupo de gente
Afetuosa
Inteligente
Generosa
Gente
Carente
Gente inocente
Gente forte
Gente de sorte
Gente que ama
Erra-se engana
Gente como a gente
Que não importa o que invente
Brinca, troca
Retoca
Acolhe com carinho.
Luxúria virou outro lar
Onde se pode amar
Chorar, rir, brincar
Ir e voltar
Acertar, errar
Flertar
Bobagens falar
Em tudo de bom acreditar.
E nesse caminho
De flores, mato e passarinho
Virei Queen, que carinho!
Marina Branquinho
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021
Eu te amo - Chico Buarque e Tom Jobim - Luxúria Cult
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir
Chico Buarque e Tom Jobim
Post Rosângela Lopes
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Coração Louco - Crazy Heart (Aquiles Castro)
Amado ou odiado
abençoado ou não
passei pelo fogo
tentando chegar até você...
Bem alto,
voando com whisky em minha mente
tentando chegar tá você...
Fiz e fui até onde não podia,
sendo quem não queria ser...
o tempo me atinge e minha coluna paga o preço!
Uma voz sempre diz que estou errado
E quando escuto a sua
te sinto nua...
estou certo
quero você aqui bem perto!!!
Eu não sei se o futuro é o mesmo pra sempre,
sempre é futuro
sempre é
incerto... não tenho muito a te mostrar
eu podia escrever uma música
eu podia escrever uma carta
ou um livro, mas eu não sei...
Engraçado como voar parece cair mesmo que por um tempinho...
Homenagem a um dos melhores filmes que assisti em minha vida:
CRAZY HEART
Aquiles Castro
Direção de Arte Charro Sendero
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
Conto Erótico - Eloisa Prado (Café do Buk Original)
Durante todo o dia imaginei esse encontro, foi quase um planejamento, e eu me vesti pra isso. Eu sabia que te encontraria, eu te busquei em olhares, em sorrisos, em um tom de voz e até mesmo no andar despretensioso.
E ali, naquele estacionamento te encontrei.
Presa fácil! Descuidado e sentado ao volante com o carro desligado.
Apesar de ser noite, a luz refletia em seu rosto destacando uma barba perfeita, cerrada e bem delineada que fazia o contorno suave na sua boca, cabelos bagunçados, sua pele era de um tom dourado.
Observei suas mãos que suavemente deslizavam pelo vidro da janela enquanto finalizava uma ligação.
Eu me aproximei, decidida de que;
Hoje eu escolhi você. Hoje te fiz minha opção.
As marcas que me foram deixadas pelo tempo, agora não importam. Prefiro imaginar as marcas que você em pouco tempo deixarás em mim.
Quero-te apenas hoje e por alguns instantes.
Não quero saber seu nome e nem de onde vem, quero agora que me leve por caminhos esquecidos e que só podem ser trilhados por meio de prazer.
Quero que me deseje e que me possua. Hoje, e somente por hoje eu me deixarei ser sua.
Pela porta carona eu entro, no meu traje gabardine vermelho que encobre apenas a lingerie preta de renda mesclada com cetim.
Você de sobressalto me olha assustado. Percebo que sua expressão muda imediatamente ao encontrar com seus olhos, os meus.
Fita com os olhos minha boca entreaberta e com os lábios vermelhos, contempla meu olhar e entende que minha boca pede a sua.
Minhas mãos lentamente abrem os botões do casaco deixando agora os seios, a mostra.
Você, de imediato enuncia resposta.
Meu corpo enquanto obra de arte te proíbe o toque. Você tenta mais uma vez, eu recuso, desvio e me excedo. Mas, ao tocar com sua mão quente entre minhas coxas, covardemente, cedo.
Meu corpo agora é como beija flor, e meu êxtase está em voo.
Seus dedos dedilham os pequenos e grandes lábios da minha bucet@ como se tocassem em pétalas.
Sua boca sedenta e voraz encaixa perfeitamente e com vontade a aureola inteira do meu seio, e reveza de um para outro como se sua boca e língua pela primeira vez provassem o gosto do mais doce mel.
Seus dedos entram em mim e eu maldigo-te, me contorço e sinto que conquistei naquele momento a paz com a guerra que dessa vez, não lutei.
Apenas me entreguei me deixei vencer e gozei.
Por todo esse tempo matei vontades, hoje te respiro em desejos.
Abro meus olhos com seus dedos em minha boca, aqueles mesmos que adentraram ao ponto G.
Percebo agora que estás pronto. Ainda ardendo em vontade eu sento em você. A entrada é lenta e gera espasmos de prazer, eu deslizo com um encaixe perfeito e como se quisesse sentir cada pedacinho seu repito isso por algumas vezes.
Em seguida aumento o ritmo, subindo e descendo com vontade, gosto de te sentir em mim.
É na sua expressão facial que encontro o caminho que eu buscava, e nesse frenesi você reage, enchendo de você em mim.
Acabou-se o instante, objetivo concluído. Um beijo demorado nem uma palavra e cada um para o seu lado.
Eu, ainda sinto o pulsar daquele instante em que me permiti, ser eu.
Eloisa Prado
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Dia de Festa no Luxúria Cult - Cantos novos - Frederico Garcia Lorca
Diz a tarde: “Tenho sede de sombra!"
Diz a lua: “Eu, sede de luzeiros.”
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.
Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.
Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.
Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.
Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério)
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.
Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.
Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.
Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.
Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério)
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Prefácio de Charles Bukowski - tradução de Paulo Leminski.
https://youtu.be/_84JIfkcQWo
Ele poderia ter sido o Dostoievski americano, o enorme coração de Fante acolhe os rejeitados da nossa sociedade e os projeta em imagens inesquecíveis. Prefácio de Charles Bukowski - tradução de Paulo Leminski. Narrado por Charro Sendero
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